Ao olhar para a história do jovem médico legista Max Ventura, de 39 anos, percebemos claramente duas coisas que já sabemos mas que é sempre bom relembrar: que vida dá voltas e a sua fragilidade.
Ano passado, presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará. Cercado de pessoas, compromissos e visibilidade. Hoje, solitário, lutando diariamente para sobreviver, enfrentando o duro confronto contra a doença de neuro behçet.
Ao descobrir a doença rara, que provocou uma séria vasculite em vários órgãos e uma sequência de AVC’s, ele teve que abandonar o cargo no sindicato e a medicina. Decisões tão dolorosas quanto os dias de internação e UTI.
Hoje Max, formado em 2020 e com atuação no SAMU e Perícia Forense do Ceará, vive sozinho na Serra Catarinense por causa do clima que favorece seu estado de saúde e enfrenta sérios problemas financeiros para custear o tratamento.

Ele, que foi homenageado com o Troféu Check Up 2025 por toda sua contribuição à medicina, conversou com o Portal Check Up. Confira a entrevista:
Como nasceu o sonho de ser médico?
Aquele típico sonho de criança. Eu sempre falei em ser médico e sempre me interessei pela literatura médica. Desde a época do ensino fundamental. Minha mãe comprava livros médicos pra me incentivar e eu lia com muita atenção. Era como se a medicina fizesse parte de mim, um dom.

Como foi sua carreira?
Muito feliz, eu me formei em 2020, por decreto presidencial durante a pandemia, resolvi por vontade própria ajudar os municípios mais carentes, onde a falta de médico era maior e havia muita dificuldade de preencher escalas. Trabalhei muito durante a pandemia em circunstâncias extremas. Atuei também no atendimento pré-hospitalar, no SAMU Ceará e no SAMU Fortaleza. Posso dizer que essa área era minha maior paixão. Logo passei no concurso para Médico Perito Legista da PEFOCE, que me identifiquei durante a faculdade ainda. Sempre tive forte atuação na política médica com defesa do sistema de saúde e dos direitos profissionais dos médicos, além da formação médica de qualidade. Cheguei ao topo nessa área quando fui eleito presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará em 2024.

Como você descobriu a doença?
Eu tinha diversos sintomas inespecíficos, mas como a maioria dos médicos negligenciava e muitas vezes me automedicava. Até que as coisas começaram a complicar, os sintomas não desapareciam mais, então eu vivia constantemente com úlceras orais, de pele, diarreia crônica, cefaleia e episódios depressivos graves, até com alucinações. E um dia, infelizmente, após um plantão na emergência da UPA, eu tive uma cefaleia excruciante, com vários déficits neurológicos. Veio o diagnóstico da Neuro behçet, a complicação mais grave da doença. Depois, múltiplos AVC’s e diagnosticada a vasculite do sistema nervoso central com o comprometimento de artérias cerebrais importantes.
Quais os momentos mais difíceis nesse processo?
Os períodos agudos em que fico muito incapacitado, dependente de terceiros para os cuidados básicos e algumas vezes acamado. Quando o quadro ameniza consigo fazer a reabilitação.
Como foi a decisão de parar de exercer a medicina?
Foi uma decisão progressiva e difícil. O choque foi logo no início que tive que me afastar completamente da medicina legal e da emergência devido às sequelas e a imunossupressão muito agressiva. Tentei por um tempo manter as atividades administrativas como presidente do Sindicato. O que se tornou inviável depois das múltiplas internações e períodos em que minha cognição fica tão prejudicada que chego a ficar em alguns momentos sem conseguir compreender bem a realidade.
Quais as suas melhores lembranças da profissão?
Sem dúvida os momentos em que fui capaz de estender as mãos às pessoas no atendimento pré-hospitalar e conseguir dar uma resposta favorável, um socorro adequado e salvar a vida da pessoa. Esse é um momento de maior fragilidade de alguém, talvez o momento mais difícil que enfrenta, a chance de morrer muito grande, e você ter alguém que chega lá e resolve. E com certeza o momento mais gratificante para o paciente, para o médico e para toda equipe de um plantão no SAMU.

Como está seu quadro de saúde hoje?
A neuro behçet está sob controle à base de muita imunossupressão, alguns até danosos para o organismo, como é o caso da prednisona em alta dose continuamente já há quase dois anos. A doença de Behçet sistêmica nunca conseguimos atingir um controle adequado, então sempre estou com lesões de pele, de boca, diarreias e outros sintomas associados de inflamação sistêmica. Tenho bastantes complicações das sequelas que ficaram dos AVC’s e das crises: distúrbios do movimento, epilepsia, déficit cognitivo, perda de força das pernas e de todo lado esquerdo do corpo. O que me leva à dependência de terceiros até para algumas coisas básicas. Além de complicações relacionadas a efeitos colaterais de medicamentos, atualmente tomo 32 comprimidos por dia além da infusão de imunobiológico mensal. Isso traz muitas complicações, como infecção recorrente.
Quais as reflexões de tudo que você está vivendo?
Primeiro que vale a pena viver, por mais difícil que seja eu nunca desisto, levanto a cabeça, costumo ser sempre sorridente e motivado, lutando pela vida. Aprendi a valorizar coisas simples da vida, as pessoas que realmente nos amam de verdade. Descobri que o ser humano tem, sim, um bom coração pois muitos anjos me socorrem no dia-a-dia para manter meus tratamentos e necessidades básicas. E o mais importante: a valorizar a fé em Cristo e o fortalecimento espiritual, essa é a força que nos mantém vivos e dispostos a lutar para sermos cada vez melhores.
Como foi a emoção de ter recebido o Troféu Check Up?
Foi um dos momentos mais especiais da minha vida. Eu jamais esperava que, naquela noite, eu poderia ser surpreendido daquela forma. Foi uma honra ser homenageado, inclusive, ao lado de professoras minhas, como a Dra. Christiane Leite e Sthela Regadas. Bem cedo na carreira, vivendo o momento mais difícil da vida. Receber esse prêmio foi de um símbolo ímpar na vida que jamais esquecerei.
Quais as principais lições da sua doença? O que você gostaria que as pessoas soubessem?
Primeiro que devemos ficar alerta a todos os sinais do nosso corpo, ter autoconhecimento e jamais ignorar quando alguma coisa não vai bem. Nunca tentar resolver as coisas sozinho e se automedicar, mesmo que seja médico ou profissional de saúde e entenda de medicamentos. E por último, não tente ser forte além dos limites, conte com os outros, deixe ser cuidado, fale o que sente e compartilhe com as pessoas as dificuldades, isso ajuda a reconhecer sintomas e complicações que você não esteja percebendo e mentalmente alivia o peso que uma doença carrega. Lembre que o adoecimento não é sozinho, é coletivo, todos da família e amigos de verdade adoecem juntos, então conte com eles sempre.
E pessoas com doenças raras precisam ser vistas pela sociedade e pelo poder público. Existe uma grande dificuldade de acesso a terapias e medicamentos tanto por operadoras de saúde como pelo sistema público. Não podemos, como sociedade, negligenciar essas pessoas que já carregam o peso de ter doenças complexas.
Como as pessoas podem te ajudar?
Existem muitas formas de colaborar. Hoje necessito de medicamentos, plano de saúde, consultas, exames e terapias não cobertas pelo plano. Então toda ajuda financeira é bem-vinda. Temos tanto a vakinha online para aqueles que preferirem, https://www.vakinha.com.br/5607811, como doação via PIX: 002.023.233-07 (CPF). Também é muito importante divulgar minha história e pedir ajuda em grupos de família, trabalho, amigos, igreja. Pois a maior dificuldade desse tipo de campanha hoje é veracidade. E desde já agradeço demais toda ajuda que tenho recebido!